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domingo, 4 de julho de 2010

O que é isso, Companheiro?


Baseado no livro de enorme sucesso de Fernando Gabeira, O que é isso, Companheiro? conta a história do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick por um grupo de jovens militantes de esquerda, em 1969 - um dos fatos de maior impacto político da história recente do Brasil.
O filme é dirigido por Bruno Barreto - recordista de público do cinema brasileiro, com mais de 12 milhões de expectadores -, que volta a filmar no Brasil depois de seis anos nos EUA.
O elenco traz o ator americano Alan Arkin no papel do embaixador, Pedro Cardoso, como Fernando Gabeira, e também Fernanda Torres, Luís Fernando Guimarães, Cláudia Abreu, Nelson Dantas e as participações especiais de Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves e Othon Bastos.


Minha opinião:

Uma das melhores produções da indústria cinematográfica brasileira. Com uma fotografia excelente, o filme é capaz de reconstituir de maneira exemplar, cenas de um momento histórico na vida política nacional. Apesar de ser de uma geração que não vivenciou os “Anos de chumbo”, pude mergulhar emocionalmente nos conflitos daquela época e captar toda a tensão, a injustiça, a ideologia tanto do regime militar quanto a de uma juventude que repleta de ideais, adotava táticas de guerrilha para demonstrar sua oposição ao governo, mas não apenas isso. Aqueles jovens que compunham o MR8 e a ANL, que no filme são interpretados por atores e atrizes nacionais da melhor qualidade, conseguiram me mostrar o papel político e social que exerciam dentro de um período altamente repressivo e conturbado. O que mais me deixou marcada era a determinação e a coragem com que atuavam em busca de suas ideias políticas.


Considero que a construção dos diálogos entre os personagens que compunham o Movimento Revolucionário foi importante para se conseguir compreender o que se passava na cabeça daqueles jovens e para mostrar também seu lado humano, o lado em que não passavam de pessoas de boa índole, que apenas almejavam um futuro melhor. Isso fica explicíto na cena em que a personagem vivida por Cláudia Abreu, cuida dos ferimentos do Embaixador americano, apesar de seu grupo o estar mantendo em cativeiro, e também quando todo o grupo demonstra tristeza por ter de executá-lo.
Mas falando em lado humano, o que na minha opinião é absolutamente dispensável, são as cenas em que se tenta humanizar a figura do torturador. Henrique, personagem vivido por Marco Ricca e que trabalha para os orgãos de repressão da Ditadura, passa a imagem de um funcionário do governo correto, que atua em defesa da ordem nacional. Se a ideia central era retratar a maneira como agia e se organizava o MR8, essa cena além de inútil, foge do objetivo principal.
Fora essa minha pequena decepção, no geral, posso afirmar que o documentário conseguiu me transportar para aquele mês de setembro de 1969, seja pela ótima fotografia e reconstituição de época ou pela ótima atuação dos artistas envolvidos, o filme me fez vivenciar em 105 minutos, toda a agitação dos tempos de guerrilha urbana, de movimentação estudantil, de AI-5 e claro, de grande repressão. As conclusões que tirei é que mesmo não sendo uma acusação dos crimes cometidos pela Ditadura, esse documentário me mostrou o lado da juventude, uma juventude com ideais muito determinados, mas que exatamente por não terem tido o apoio da maioria da sociedade ( pelo menos é o que se retrata no filme, quando os cidadãos comuns denunciam o movimento, tanto na cena do sequestro, quanto na do padeiro que suspeita de um dos jovens que vai comprar os frangos), não conseguem conquistar o poder político, mas deixam sua marca na história e o exemplo de coragem que caracterizou os movimentos estudantis da época.
Por tudo isso, acredito que esse filme é de grande importância não só para o cinema brasileiro, mas como documentação de um fato importantissímo de ser conhecido pela minha geração e pelas próximas.



Bem, essa crítica feita por mim foi desenvolvida para um trabalho de Comunicação e fatos contemporâneos. Achei muito válido a exibição do filme pelo meu querido professor e grande jornalista Roberto Assaf. Eu já havia escutado a respeito deste filme, mas nunca tive a oportunidade de assisti-lo, e ao vê-lo na faculdade, realmente achei maravilhoso. Eu não sou nenhuma especialista no assunto, e inclusive, como já disse, venho de uma geração nascida quase três décadas após esse fato, mas me interesso bastante por esse determinado momento político da história nacional e admiro muito as atitudes tomadas pelos jovens e intelectuais da época. Ao meu ver, demonstraram muita determinação e coragem. Eles agiam de uma forma que as gerações atuais não conseguem atuar. E quando falo isso, não estou fazendo crítica a ninguém, apenas expondo minha visão da situação. Não posso deixar de acrescentar que o elenco me agradou demais e que para mim, o filme acrescentou muito.

Recebi nota 10 por esta crítica, e nota 10 também no trabalho que desenvolvi para a matéria Teoria da Comunicação, na qual falei sobre o jornal Vencer. Quanto ao trabalho de Filosofia, no qual eu e meu grupo, falamos sobre sociedade disciplinar e sociade de controle, recebemos 8,5.

E com a entrega desses trabalhos e da realização de mais algumas provas, deu-se fim o meu primeiro semestre de faculdade. Ainda não consegui assimilar direito a rapidez com que se deu isso. Foi há apenas algumas semanas que eu estava estudando desesperadamente para os exames de vestibular, roendo todas as unhas aguardando os resultados...

O Estágio na Vale começa dia 12 deste mês e eu estou ansiosa para que chegue logo o dia, quero começar a trabalhar, conhecer as novas pessoas com quem irei me relacionar e sobretudo aprender e absorver tudo o que eu puder dessa minha primeira experiência profissional.

Agora,com as férias, estou aproveitando para cuidar um pouco da saúde física também. Algumas semanas de academia até a volta às aulas não me farão nenhum mal, por isso tomei a iniciativa tão logo deu-se por encerrada minhas aulas. Apesar da dor muscular, eu estou me sentindo muito bem.

E é isso! Agora é só aguardar o dia 12 chegar e eu vir documentar as novidades.

sábado, 19 de junho de 2010

Jornal Vencer: mais um produto pertencente a MassCult


( Capa do Jornal Vencer, uma publicação nitidamente destinada à pessoas de classes mais baixas)

A Escola de Frankfurt, um dos núcleos de pensadores mais influentes da história da humanidade, fundou as bases da chamada “teoria crítica”. O cerne teórico do grupo consistia em pensar a obra de arte sob um viés totalmente atrelado à lógica de produção capitalista, bem como seus efeitos sobre a nova concepção de modernidade a partir da Terceira Revolução Industrial de meados do século XIX. A criação, agora, estaria submetida à demanda mercadológica, sua concernente aceitação e geração de lucro, como nos auxilia tão primorosamente Coelho: “Nesse quadro, também a cultura – feita em série, industrialmente, para o grande número – passa a ser vista não como instrumento de livre expressão, crítica e conhecimento, mas como produto trocável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa. E produto feito de acordo com as normas gerais em vigor (...)” (COELHO, 1996, pg.11).

Assim, a produção cultural, aproveitando todo este ensejo sedimentado no fim do século XIX, “elimina a dimensão crítica”. Os produtos culturais, desta forma, “tem a função de ocupar o espaço de lazer que resta ao operário e ao trabalhador assalariado depois de um longo dia de trabalho, a fim de recompor suas forças para voltar a trabalhar no dia seguinte, sem lhe dar trégua para pensar sobre a realidade miserável em que vive”. (FREITAG, 1986, pág. 72).


No início do século XV, Gutemberg inventa os tipos móveis de imprensa, o que
possibilita a circulação de vários textos da época a um número maior de pessoas e abre as portas para o moderno mundo da difusão do conhecimento. Contudo, as pessoas que tinham acesso a essas publicações, pertenciam a uma elite letrada que podia pagar para obtê-los, o que indica que tais meios ainda não tinham alcançado a maior parte da população.
A situação começa a mudar a partir do fenômeno da industrialização, com o aparecimento dos jornais e dos romances de folhetim, que além do preço acessível e da linguagem de fácil entendimento, ofereciam entretenimento com suas histórias e manchetes sensacionalistas que tanto seduziam as massas.
A Indústria Cultural começou a obter grandes faturamentos com esses veículos, pois os tornou em um produto padronizado, feito para atender as necessidades do proletariado.
Baseado na mesma lógica que motivava a Indústria Cultural durante os primeiros anos da Revolução Industrial e ainda a motiva até hoje, o produto de massa no qual estamos analisando, nos permite estabelecer uma relação entre essa lógica da Indústria Cultural e a masscult.
Com a ideia inicial de ser uma publicação voltada para um público exato, que é a torcida flamenguista, o presidente do grupo editorial responsável pela publicação do jornal, Walter de Mattos Júnior, chegou a afirmar à época do lançamento do Vencer, que o jornal seria uma hipersegmentação, reforçando o objetivo de que o jornal buscava atender ao público que gosta de futebol. Mas esse termo acabou não revelando nada além do que se sabia: que esse público também gosta de fofocas de celebridade, sangue e mulher nua, ou quase, pois o jornal foi elaborado a partir da premissa básica de que deveria ser sobretudo popular.
Por isso, após seis meses, a direção do jornal percebeu que poderia concorrer com os demais populares: se um terço da torcida do Flamengo passasse efetivamente a comprar o Vencer, teria teoricamente algo em torno de um milhão de leitores. Não há nenhum jornal no Brasil com essa tiragem. Na realidade o que se fez foi uma projeção em cima desse número, o que daria, ao Vencer, a médio prazo, cerca de 100 mil compradores e 300 mil leitores diários. Portanto, o jornal passou a dar mais abrangência a conteúdos que nada tem a ver com futebol, mas que de toda forma interessam bastante a imensa torcida flamenguista, que por si só, já se inclui dentro do conceito de massa.
O Vencer hoje em dia, não nega qual o seu objetivo e seu público alvo. É bem fácil perceber que ele procura levar entretenimento através do futebol e do sensacionalismo e que isso agrada ao tipo de gente que consome esse produto. É a mesma situação que ocorria com o proletariado no início da Revolução Industrial e da ascensão da Indústria Cultural. O entretenimento, o sensacionalismo, a linguagem de fácil entendimento e os preços acessíveis são elementos inegavelmente essenciais para se conquistar esse determinado público.
O que essas pessoas buscam encontrar no Vencer, são os acontecimentos cotidianos que ocorrem na cidade. E no caso do tabloide, essas informações são retratadas e escritas de maneira espetacularizada, promovendo a identificação do leitor para com aquilo que está lendo. O objetivo é causar algum tipo de emoção, de interação, que promova a alienação e torne o consumidor cativo daquilo que consome.
Tendo já classificado o produto em questão, como um meio popular de propagação da informação, vale dizer que o Vencer também se encaixa dentro do conceito de mediação, tendo em vista sua linguagem, que não é alta nem baixa e sim apenas uma linguagem de fácil entendimento. Dessa forma, o que encontramos no tabloide é a colocação dos temas de maneira requentada, intrigante e, inclusive, bem-humorada, mas com a preocupação de que seja bem compreendida.
A linguagem popularesca e francamente vulgar, as manchetes que muitas vezes, tendem para a pilhéria, o torna capaz de conseguir a participação do público. Não é a toa que foi criado uma parte específica onde as pessoas podem enviar fotos, opiniões, comentários e inclusive, escrever uma espécie de manchete. Portanto, o povo participa de forma dinâmica das narrativas citadinas que o jornal oferece, não só recebendo a informação, como deformando-a, criticando-a profanando-a e correlacionando-a com sua própria realidade.
Notícias como a crise mundial, os conflitos no Oriente Médio e o aquecimento global são deixados em segundo plano, pois os editores sabem que esses assuntos estão muito distantes da realidade do povo.
Esse caráter cultural tipicamente de massa, tem proporcionado não só ao Vencer, mas a todas as publicações que resolvem destinar seu trabalho ao grande público, muitas vezes uma ultrapassagem no número de vendas em relação a jornais muito mais conceituados e por isso, elitizados. Por esse motivo, muitos grupos editoriais, hoje em dia, possuem não apenas um tipo de jornal, mas sim aquele voltado para a chamada classe média, e outro voltado para a masscult, que constitui maior número de pessoas que garantem o sucesso desse produto.
Diante do apresentado, podemos nos indagar o motivo que leva a maioria das pessoas a apreciarem com tanta emoção notícias de crimes e desgraças que ocorrem, bem como escandâlos que envolvem políticos e famosos e a violência em geral que assola os grandes centros urbanos. Talvez possamos encontrar essa resposta se passarmos a entendê-lo como um fenômeno cultural. Essas barbaridades que tanto horror despertam, também são capazes de atiçar a curiosidade do indíviduo, levando-o a não apenas temer o lado feio e mortal que aquilo representa, mas a desejar e inclusive adorar o lado mais terrível e obscuro do feio.
O que as manchetes fazem é divulgar essas informações através de jogos de imagens e de palavras que tornam essas informações altamente atrativas, independente de seu caráter assombroso. Além desses recursos motivarem ainda mais o interesse pelo feio, ainda o glamourizam ou o ridicularizam, dependendo da situação.
O importante é observar que isso propicia uma relação sensorial com a feiúra.
Uma relação que já vem sendo observada desde a antiguidade, quando vários escritores e filósofos expunham o lado atraente e irresistível que essa figura pode nos apresentar.
Nos dias de hoje, vivemos em um mundo globalizado e midiático, onde meios de comunicação, especialmente a televisão, nos impõem padrões de comportamento e beleza. Em um mundo onde a moda, a aparência física, a saúde e a posição social de um indivíduo são altamente cultuados e impostos como modelo a serem seguidos pelos membros de uma sociedade, é interessante saber que o feio, tão discriminado e reprovado, ainda cause no ser humano essa espécie de identificação.


Texto elaborado por mim (da parte que é citado Gutemberg até o final)para um trabalho de Teoria da Comunicação onde deveriam ser relacionados os temas Cultura de massa, Indústria Cultural, narrativas citadinas e o fenômeno do "feio" no espaço urbano.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

As sociedades alienizantes de disciplina e controle



É difícil pensar no conceito de sociedade disciplinar e não associá-lo a figura de Adolf Hitler. Essa associação se torna ainda mais clara quando se assiste aos 110 minutos de propaganda nazista, dirigida pela cineasta Leni Riefenftahl, de 1934 e intitulada de “O triunfo da vontade”. Nela, podemos observar todos os aspectos de um Estado que aplica o confinamento e as técnicas de disciplina nos indivíduos e que são usadas como meio de exercer seu poder absoluto sobre os homens, vigiando-os, treinando-os, utilizando-os quando e no que lhe é útil e eventualmente punindo-os e fazendo de suas diversas instituições arquitetônicas, como prisões, escolas, hospitais, sanatórios, dentre outras, um meio de punição, de ensinamento da disciplina e de controle dos corpos.
No filme em preto e branco e produzido a mais de 70 anos, se apresenta à imagem do soberano que não apenas é respeitado e temido, mas idolatrado. Seu discurso e sua ideologia são completamente absorvidos pela massa alienada, que se submete cegamente ao poder do partido, recebendo-o e saudando-o de forma extasiada e dotada de reverências.
O seguimento das normas impostas através das técnicas disciplinares é claramente observada no documentário pela imagem do povo alemão, que é apresentado como uma raça puramente ariana, jovem, saudável e limpa. O caráter militar que é imposto pelo Fuhrer é observado nos uniformes da juventude hitlerista, nas reverências e também nos movimentos e no alinhamento dos corpos. Hitler é o maior exemplo de poder soberano, totalitário e arbitrário. Ele tem a sociedade a sua mercê, exercendo decisões sobre a morte e sobre o gerenciamento da vida de cada indivíduo. Quando falamos em morte é importante ressaltar que num segundo momento, com a Alemanha já em estado de guerra, o racismo de Estado foi o pretexto adotado para se exterminarem milhões de indivíduos, tanto cidadãos alemães como judeus e todos aqueles considerados impuros. Os cidadãos eram enviados para a guerra com a responsabilidade de matar e morrer, em nome da honra e da pureza da raça. As outras raças, vitimadas por esse violento racismo, eram consideradas abomináveis e merecedoras do extermínio. Percebe-se que a ideologia nazista se preocupava mais em fazer morrer do que deixar viver a partir do momento em que via na morte de seres de sua própria raça, a contribuição para a purificação e saúde da mesma. Com esse pensamento ideológico tão forte e devastador o partido Nacional Socialista Alemão foi capaz de reduzir milhares de indivíduos a pilhas de corpos e ossos, que se multiplicavam a cada dia nos campos de concentração, após serem exaustivamente castigados e usados em nome do trabalho. No documentário Noite e Neblina de Alain Resnais, têm-se as imagens mais realistas e aterradoras das perversões a que esse Estado foi capaz de submeter seus indivíduos. A estratégia de usar o trabalho como o meio para a libertação da alma, mostra de maneira exemplar a execução do “fazer morrer, deixar viver”.


(Na imagem, campo de concentração em Auschwitz)

Aos indivíduos levados para os campos, lhes era permitido o direito de sobrevivência enquanto pudessem trabalhar ou serem vítimas de experimentos científicos e práticas sexuais escravas. Mas no momento que o Estado achasse conveniente, suas vidas eram tiradas e nem assim seus corpos deixavam de ser explorados de alguma maneira. Seus pertences e seus restos mortais eram aproveitados na fabricação e comércio de produtos industrializados. Em vista disso, temos um Estado que adotou plenamente todas as tecnologias de uma sociedade disciplinar, não restringindo a decisão de morte porém, apenas ao chefe supremo, mas também a vários outros cidadãos que detiveram o poder sobre a vida e a morte de muitos outros. Para citar exemplos, a Gestapo, a SS, os soldados de guerra, os cidadãos que podiam fazer denúncias e todos aqueles que de alguma forma direta ou indireta contribuíram para a morte de seres humanos. Assim, o poder assassino e soberano se ampliava a todo o corpo social.


(crematório de corpos humanos em Auschwitz)



(médicos nazistas utilizando seres humanos como cobaia)


O nazismo teve um fim, mas a sociedade disciplinar, em contrapartida, simplesmente evoluiu para uma sociedade mais sofisticada, onde se torna possível organizar os indivíduos na totalidade de suas atividades, onde o exercício da disciplina se torna em exercício do controle. A sociedade de controle, surgida no pós 2º guerra, se caracteriza pela invisibilidade que se expande junto às redes de informação.



Nesse estágio, a disciplina é exercida por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Pelo fato dos indivíduos deste tipo de organização social serem mais móveis e flexíveis, já não pertencem a nenhuma identidade e sim a códigos, se tornando divisíveis, já que os códigos podem determinar se você é você ou não em determinadas situações. Um exemplo bem claro é quando sem nenhum motivo aparente alguém tem sua senha de cartão de crédito recusada, essa pessoa sabe que o cartão lhe pertence, mas o código, que no caso é a senha que lhe foi designada como pessoal e intransferível, coloca em dúvida a autenticidade do “ser”. Isso é conseqüência de um mundo informatizado e virtual, onde a vigilância é constante e a privacidade é altamente banalizada. Parece que Orwell, ao escrever seu célebre romance político intitulado “1984”, já previa esse caráter vigilante e invasor das sociedades atuais. Na trama fictícia, a Oceania, governada pelo “Grande irmão”, é uma nação onde as pessoas vivem vigiadas a todo o instante por câmeras instaladas em suas casas e em seus ambientes de trabalho. As teletelas, que na história é o meio que o partido encontra para vigiar os indivíduos, são para nossa sociedade, as câmeras de vigilância instaladas em lugares públicos e inclusive dentro de nossas casas. Podemos até não ter a polícia do pensamento, como há na trama, mas os equipamentos tecnológicos são cada vez mais capazes de decodificar mensagens e rastrear indivíduos tanto no meio espacial quanto no virtual. Por tudo isso, vale ressaltar que a sociedade de controle é tão ou mais tirana quanto a disciplinar, mas sua ideologia também é tão ou mais contaminante que a de outrora e os indivíduos já aderiram completamente a ela. O que se observa hoje é a banalização completa da privacidade e a busca constante pelo reconhecimento. O anonimato hoje em dia, assusta e pode até causar depressão. A indústria cultural se aproveita bastante disso, transformando em entretenimento as invasões de privacidade e promovendo a saída do anonimato. E os lucros com esse determinado produto conquistam as massas de tal forma, que é impossível negar o alto grau de alienação exercido pela sociedade de controle.


Texto elaborado por mim para um trabalho de Filosofia na faculdade.

domingo, 23 de maio de 2010

O primeiro processo seletivo a gente nunca esquece.





Dou início a este blog com o objetivo de relatar minha primeira grande conquista, que foi ter sido aprovada para estágio na Vale, porém também pretendo falar aqui sobre comunicação e todos os temas pertinentes a minha faculdade e as minhas atividades no estágio. Para começar, meu nome é Rafaela, tenho 19 anos e me formei em técnico em Administração de Empresas juntamente com o Ensino Médio, o que foi bom para me dar uma base melhor sobre mercado de trabalho, já que graças ao técnico estou tendo a oportunidade de realizar um estágio antes de fazê-lo na faculdade.
E hoje, inaugurando os posts, quero relatar como foi meu primeiro processo seletivo, que envolveu testes, dinâmicas de grupo, redação, painel e entrevista com os gestores, realidade que, sei muito bem, faz parte da vida de muitos universitários que almejam uma vaga de estágio ou cargos de trainee e que também enfrentarei novamente num futuro próximo.
Desde que comecei a cursar Comunicação Social esse ano, minha mente se abriu para as diversas possibilidades que minha carreira pode me oferecer e uma área que me chamou bastante atenção é a do mundo corporativo. Há uns três meses, venho acompanhando diversos blogs sobre carreira, geração Y, estágios e trainees e descobri que isso me fascina e se encaixa no meu perfil. Então decidi me inscrever no processo seletivo para estágio da Vale.
O primeiro passo após a inscrição e o cadastro de currículo foi aguardar resposta se eu participaria ou não das provas online. Dos aproximadamente 4.300 inscritos, eu estava entre os 300 que foram selecionados para os testes de lógica, português e conhecimentos gerais. Fiz as provas e fui uma das 88 que passaram para a Dinâmica de grupo. A notícia me deixou super feliz e confesso, um pouco ansiosa (meu grande defeito), pois eu nunca havia participado de algo parecido e me assustava um pouco a ideia de me apresentar na frente de várias pessoas que estariam constantemente avaliando meu comportamento. Mas mesmo assim encarei da melhor maneira que pude. A dinâmica começou quando a consultora da People on time, que se chama Fabrícia e é uma pessoa super simpática, nos chamou para uma sala e lá deveríamos escrever nosso nome e colar nossa foto em um crachá e pendura-lo no pescoço. O passo seguinte foi nos sentarmos e esperar que ela começasse a dinâmica, o que ela fez imediatamente, informando-nos que deveríamos fazer uma apresentação pessoal, falar nosso nome, com quem morávamos, nossos objetivos, porque escolhemos a Vale, o que esperávamos encontrar no estágio e ainda escolher uma letra do nosso nome que representasse uma característica nossa e nos deu cinco minutos para escolhermos a característica. Fiquei um pouco nervosa nessa hora, pois sabia que teria de falar na frente daquela sala toda e quando a consultora disse que tinha acabado o tempo e olhou bem nos meus olhos e disse: “Você pode começar?”, eu pensei que fosse passar mal de nervosismo, mas abri meu melhor sorriso e disse que sem problema algum. Comecei falando de mim, dos meus objetivos e escolhi me descrever como uma pessoa responsável, expliquei a ela o porquê de me considerar assim, porque sempre me envolvo bastante com as coisas nas quais me comprometo e procuro faze-las de maneira competente, o que considero que ficou até um pouco clichê, mas eu simplesmente fui sincera e tentei passar isso para todos, inclusive cheguei até a comparar o conceito de responsabilidade que tenho, com o que acredito que a Vale também tem para com a sociedade, o meio ambiente e o público geral com que trabalha (funcionários, clientes, fornecedores). Se eu pudesse consertar algo, seria a parte que engasguei em uma palavra, ela simplesmente não saía e isso me deixou constrangida, pois a Fabrícia me olhava com um sorriso esperando que eu prosseguisse e eu pensei que tinha estragado tudo ali, naquele momento. Acredito que fiquei uns 20 intermináveis segundos tentando encontrar a palavra e recuperar o fio do meu raciocínio, o que felizmente aconteceu, enquanto ela ia anotando milhares de coisas em um caderno.
Como eu fui a primeira a me apresentar, nos 10 ou 15 minutos seguintes, só fiquei observando a apresentação das demais pessoas. Um fato que me chamou a atenção foi que das 28 pessoas que haviam na sala, apenas três eram do sexo masculino.
Terminada as apresentações, fomos divididos em grupos e nos foi apresentada à tarefa.
Recebemos um saco que continha vários materiais, como canetas hidrocor, giz de cera, palitos de picolé e cartolina, com que deveríamos construir uma locomotiva composta de três vagões, que deveriam apresentar os requisitos citados no briefing. Depois disso, tivemos a apresentação, onde acho que me saí muito bem tanto na explicação como nas respostas rápidas e assertivas às perguntas da consultora. Após a apresentação fomos para um coffe break de 10 minutos e voltamos a ser divididos em grupos para debatermos sobre uma situação que nos foi apresentada, todos, deveríamos entrar em um consenso e chegar a uma reposta para apresentar a consultora, achei essa atividade muito mais simples e tranqüila e para finalizar veio a redação, onde eu falei um pouco da situação econômica (citando o BRIC), social e ambiental do Brasil e dissertando sobre o que considero importante para a melhora dessas condições. A redação foi a parte mais fácil e terminada ela, podíamos ir embora.
10 dias depois eu recebia a resposta que estava entre os 42 candidatos aprovados para o Painel, fiquei muito feliz e tentei ficar menos nervosa, o que eu acho que deu certo, pois dessa segunda vez, achei minha apresentação pessoal muito melhor. Pela manhã, tivemos uma dinâmica muito parecida com a primeira, mas dessa vez, não era um trem e sim um Estádio de Futebol para a Copa de 2014 que deveríamos montar. Modéstia parte, o nosso Estádio ficou lindo, muito bem equipado e montado, muito bem feito, pensando no futuro, pois na apresentação mostramos tudo o que planejamos de infra-estrutura, não ficou faltando nenhum detalhe como aconteceu nos outros grupos e os gestores mostraram que tinham ficado muito satisfeitos com nosso trabalho. Tivemos um coffe break após a apresentação e voltamos para participar dos debates, a diferença é que agora os grupos não tinham sido escolhidos aleatoriamente como antes, mas sim uma escolha dos gestores, não é a toa que no meu grupo tinham 6 pessoas e das 5 vagas de estágio que haviam, eu e mais 3 do meu grupo conquistamos.
Acredito que a dinâmica tenha sido praticamente decisiva para a escolha deles.
Após os debates, os gestores finalmente se apresentaram. Eram 4 gestores e 5 vagas.
Após a apresentação destes, deveríamos por ordem de preferência, dizer com quem queríamos trabalhar. Após isso, fomos mandados para o Hall onde nos esperava um Coffe break muito mais caprichado que o primeiro e também muito mais demorado. Mas também foi nesse espaço de tempo que fiz amizade com pessoas muito legais, que foram do meu grupo na dinâmica, ficamos conversando sobre diversos assuntos para tentar descontrair um pouco. De repente, a Consultora chamou cerca de 24 pessoas e as mandou embora, estes estavam reprovados. Eu nem acreditei que justo eu e as pessoas com quem tinha feito amizade ali estávamos todos selecionados para a entrevista. O momento em que chamaram “Rafaela da Rocha, por favor, sala 5” eu levantei automaticamente e nem pensei em mais nada, fui decidida a provar o quanto eu queria e tinha capacidade de estagiar ali. Descobri que a Cristiane, a gestora que escolhi em primeiro lugar e o Geraldo,o gestor que pus em ultimo, me selecionaram para a entrevista. As perguntas que eles fizeram foram bem tranqüilas de se responder, foi mais uma conversa descontraída do que uma entrevista, perguntaram sobre algumas coisas do meu currículo e sobre como eu costumava reagir diante de determinadas situações. Conversamos por uns 10 minutos, eles agradeceram e pediram para eu retornar para o Hall para finalmente uns 10 minutos depois o Geraldo me chamar e dizer que havia me selecionado, ele me disse que desde a dinâmica já tinha feito a escolha dele e eu fiquei muito feliz, mas também surpresa, pois eu o havia escolhido em último lugar, não por que não tenha achado as atividades da área dele interessante, mas haviam outras atividades descritas por outros gestores que eu achei que tinham um pouco mais a ver comigo. Passada a surpresa, foi só felicidade e o gostinho da primeira conquista, que ainda que possa parecer pequena para alguns, na minha opinião é um dos passos mais importantes que estou dando, conseguir meu primeiro estágio em uma empresa grande como a Vale, que possui valores com os quais me identifico e admiro.
E encerro por aqui esse meu primeiro longo post, com a alegria e satisfação por tudo o que deixei relatado.