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sábado, 19 de junho de 2010

Jornal Vencer: mais um produto pertencente a MassCult


( Capa do Jornal Vencer, uma publicação nitidamente destinada à pessoas de classes mais baixas)

A Escola de Frankfurt, um dos núcleos de pensadores mais influentes da história da humanidade, fundou as bases da chamada “teoria crítica”. O cerne teórico do grupo consistia em pensar a obra de arte sob um viés totalmente atrelado à lógica de produção capitalista, bem como seus efeitos sobre a nova concepção de modernidade a partir da Terceira Revolução Industrial de meados do século XIX. A criação, agora, estaria submetida à demanda mercadológica, sua concernente aceitação e geração de lucro, como nos auxilia tão primorosamente Coelho: “Nesse quadro, também a cultura – feita em série, industrialmente, para o grande número – passa a ser vista não como instrumento de livre expressão, crítica e conhecimento, mas como produto trocável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa. E produto feito de acordo com as normas gerais em vigor (...)” (COELHO, 1996, pg.11).

Assim, a produção cultural, aproveitando todo este ensejo sedimentado no fim do século XIX, “elimina a dimensão crítica”. Os produtos culturais, desta forma, “tem a função de ocupar o espaço de lazer que resta ao operário e ao trabalhador assalariado depois de um longo dia de trabalho, a fim de recompor suas forças para voltar a trabalhar no dia seguinte, sem lhe dar trégua para pensar sobre a realidade miserável em que vive”. (FREITAG, 1986, pág. 72).


No início do século XV, Gutemberg inventa os tipos móveis de imprensa, o que
possibilita a circulação de vários textos da época a um número maior de pessoas e abre as portas para o moderno mundo da difusão do conhecimento. Contudo, as pessoas que tinham acesso a essas publicações, pertenciam a uma elite letrada que podia pagar para obtê-los, o que indica que tais meios ainda não tinham alcançado a maior parte da população.
A situação começa a mudar a partir do fenômeno da industrialização, com o aparecimento dos jornais e dos romances de folhetim, que além do preço acessível e da linguagem de fácil entendimento, ofereciam entretenimento com suas histórias e manchetes sensacionalistas que tanto seduziam as massas.
A Indústria Cultural começou a obter grandes faturamentos com esses veículos, pois os tornou em um produto padronizado, feito para atender as necessidades do proletariado.
Baseado na mesma lógica que motivava a Indústria Cultural durante os primeiros anos da Revolução Industrial e ainda a motiva até hoje, o produto de massa no qual estamos analisando, nos permite estabelecer uma relação entre essa lógica da Indústria Cultural e a masscult.
Com a ideia inicial de ser uma publicação voltada para um público exato, que é a torcida flamenguista, o presidente do grupo editorial responsável pela publicação do jornal, Walter de Mattos Júnior, chegou a afirmar à época do lançamento do Vencer, que o jornal seria uma hipersegmentação, reforçando o objetivo de que o jornal buscava atender ao público que gosta de futebol. Mas esse termo acabou não revelando nada além do que se sabia: que esse público também gosta de fofocas de celebridade, sangue e mulher nua, ou quase, pois o jornal foi elaborado a partir da premissa básica de que deveria ser sobretudo popular.
Por isso, após seis meses, a direção do jornal percebeu que poderia concorrer com os demais populares: se um terço da torcida do Flamengo passasse efetivamente a comprar o Vencer, teria teoricamente algo em torno de um milhão de leitores. Não há nenhum jornal no Brasil com essa tiragem. Na realidade o que se fez foi uma projeção em cima desse número, o que daria, ao Vencer, a médio prazo, cerca de 100 mil compradores e 300 mil leitores diários. Portanto, o jornal passou a dar mais abrangência a conteúdos que nada tem a ver com futebol, mas que de toda forma interessam bastante a imensa torcida flamenguista, que por si só, já se inclui dentro do conceito de massa.
O Vencer hoje em dia, não nega qual o seu objetivo e seu público alvo. É bem fácil perceber que ele procura levar entretenimento através do futebol e do sensacionalismo e que isso agrada ao tipo de gente que consome esse produto. É a mesma situação que ocorria com o proletariado no início da Revolução Industrial e da ascensão da Indústria Cultural. O entretenimento, o sensacionalismo, a linguagem de fácil entendimento e os preços acessíveis são elementos inegavelmente essenciais para se conquistar esse determinado público.
O que essas pessoas buscam encontrar no Vencer, são os acontecimentos cotidianos que ocorrem na cidade. E no caso do tabloide, essas informações são retratadas e escritas de maneira espetacularizada, promovendo a identificação do leitor para com aquilo que está lendo. O objetivo é causar algum tipo de emoção, de interação, que promova a alienação e torne o consumidor cativo daquilo que consome.
Tendo já classificado o produto em questão, como um meio popular de propagação da informação, vale dizer que o Vencer também se encaixa dentro do conceito de mediação, tendo em vista sua linguagem, que não é alta nem baixa e sim apenas uma linguagem de fácil entendimento. Dessa forma, o que encontramos no tabloide é a colocação dos temas de maneira requentada, intrigante e, inclusive, bem-humorada, mas com a preocupação de que seja bem compreendida.
A linguagem popularesca e francamente vulgar, as manchetes que muitas vezes, tendem para a pilhéria, o torna capaz de conseguir a participação do público. Não é a toa que foi criado uma parte específica onde as pessoas podem enviar fotos, opiniões, comentários e inclusive, escrever uma espécie de manchete. Portanto, o povo participa de forma dinâmica das narrativas citadinas que o jornal oferece, não só recebendo a informação, como deformando-a, criticando-a profanando-a e correlacionando-a com sua própria realidade.
Notícias como a crise mundial, os conflitos no Oriente Médio e o aquecimento global são deixados em segundo plano, pois os editores sabem que esses assuntos estão muito distantes da realidade do povo.
Esse caráter cultural tipicamente de massa, tem proporcionado não só ao Vencer, mas a todas as publicações que resolvem destinar seu trabalho ao grande público, muitas vezes uma ultrapassagem no número de vendas em relação a jornais muito mais conceituados e por isso, elitizados. Por esse motivo, muitos grupos editoriais, hoje em dia, possuem não apenas um tipo de jornal, mas sim aquele voltado para a chamada classe média, e outro voltado para a masscult, que constitui maior número de pessoas que garantem o sucesso desse produto.
Diante do apresentado, podemos nos indagar o motivo que leva a maioria das pessoas a apreciarem com tanta emoção notícias de crimes e desgraças que ocorrem, bem como escandâlos que envolvem políticos e famosos e a violência em geral que assola os grandes centros urbanos. Talvez possamos encontrar essa resposta se passarmos a entendê-lo como um fenômeno cultural. Essas barbaridades que tanto horror despertam, também são capazes de atiçar a curiosidade do indíviduo, levando-o a não apenas temer o lado feio e mortal que aquilo representa, mas a desejar e inclusive adorar o lado mais terrível e obscuro do feio.
O que as manchetes fazem é divulgar essas informações através de jogos de imagens e de palavras que tornam essas informações altamente atrativas, independente de seu caráter assombroso. Além desses recursos motivarem ainda mais o interesse pelo feio, ainda o glamourizam ou o ridicularizam, dependendo da situação.
O importante é observar que isso propicia uma relação sensorial com a feiúra.
Uma relação que já vem sendo observada desde a antiguidade, quando vários escritores e filósofos expunham o lado atraente e irresistível que essa figura pode nos apresentar.
Nos dias de hoje, vivemos em um mundo globalizado e midiático, onde meios de comunicação, especialmente a televisão, nos impõem padrões de comportamento e beleza. Em um mundo onde a moda, a aparência física, a saúde e a posição social de um indivíduo são altamente cultuados e impostos como modelo a serem seguidos pelos membros de uma sociedade, é interessante saber que o feio, tão discriminado e reprovado, ainda cause no ser humano essa espécie de identificação.


Texto elaborado por mim (da parte que é citado Gutemberg até o final)para um trabalho de Teoria da Comunicação onde deveriam ser relacionados os temas Cultura de massa, Indústria Cultural, narrativas citadinas e o fenômeno do "feio" no espaço urbano.

2 comentários:

Let disse...

Você poderia ter citado a minha participação no trabalho, falando da Escola de Frankfurt. :)

Let disse...

Do tipo e minha querida amiga, companheira de grupo, inseparável: Letícia.

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